cultura do imediatismo

Cultura do imediatismo: como essa tendência influenciou na carreira de Davi?

Minha relação com o mundo acadêmico cresceu muito depois que desenvolvi um programa de estágios para a empresa onde trabalho, mas confesso que estou um pouco assustada com o quanto a cultura do imediatismo tem dominado as novas gerações.

Para esses jovens, parece não existir um desencadear de eventos — o que foi feito no passado lá ficou. O cenário atual não tem nenhuma relação com o que aconteceu e também não afeta como será daqui para frente. É como muitos deles dizem: “vivendo o agora, que é o que importa”.

Isso não é ruim, mas a verdade é que estão partindo de uma contagem de tempo equivocada: o chamado instante prolongado. Trata-se de nada mais do que um recorte do presente sem compromisso com os aprendizados anteriores ou planejamentos para o amanhã.

Quando falamos em desenvolvimento de pessoas, tal descompasso é um grande complicador, pois é inegável que eles sejam talentosos. Mas todo esse potencial pode ser desperdiçado se não souberem lidar com as ansiedades e apatias que surgem com essa percepção de mundo.

É isso que eu venho tentando desenvolver com o Davi, nosso estagiário aqui na Garden. Depois de três semanas no setor de expansões, ele veio conversar comigo sobre sua promoção para supervisor.

Um convite de estágio para o Davi

Isso mesmo: supervisor. Mas, antes de explicar melhor, vou voltar um pouco nos fatos para detalhar por que Davi é um profissional tão especial. Como disse, minha relação com as universidades se intensificou muito depois da criação do nosso Programa Garden de Talentos.

Em uma feira de estágios da Universidade Federal aqui da cidade, fui membro do júri em uma atividade com os alunos do curso de administração. O trabalho que Davi apresentou, defendendo de forma eloquente e embasada, foi incrível.

Elogiei muito seu desempenho e a professora se adiantou pedindo um estágio para ele em nossa empresa. A Garden é uma franqueadora forte na cidade, que aluga equipamentos para eventos.

Parte da operação de aluguel ainda integra nossas atividades, mas a principal e mais estratégica é a abertura de novos franqueados. Isso exige profissionais completos — e eu vi que o Davi poderia vir a ser um deles.

O início do meu comprometimento pessoal

Apesar de não ser de praxe, fiz o convite para ele ali mesmo. Além de aceitar, Davi se mostrou muito grato e orgulhoso pelo que tinha acabado de acontecer.

Orgulho esse que, no primeiro dia de estágio, o fez pensar que começaria atuando em cargos decisórios, ainda que em seu período de adaptação. Essa impaciência, que no primeiro momento se mostrou tímida, tem sido uma constante nas relações internas dele e já rendeu algumas reclamações de outros profissionais, inclusive.

Achei que, para aplacar sua inquietação e suas expectativas, o melhor seria que eu apresentasse o Programa Garden de Talentos pessoalmente. Assim, ele entenderia quais etapas ainda teria que vivenciar, como seria avaliado e o tempo necessário para seu desenvolvimento.

Também me preocupei em destacar suas qualidades ou habilidades que eram estratégicas para nosso negócio e, principalmente, faziam com que ele tivesse um potencial de crescimento muito bom dentro da Garden.

Os conflitos causados pela cultura do imediatismo de Davi

Achei que o briefing seria útil e fosse fazê-lo entender que seu estágio era um processo de aprendizagem de conhecimentos alinhados com a prática. Mas logo começaram a aparecer alguns conflitos no time em que Davi estava.

Impaciência com os processos

Davi queria pular todas as etapas do processo de credenciamento de um potencial franqueado. Como nativo digital, seus argumentos eram todos fundamentados em pesquisas na internet. Sua vontade era aprovar alguns formulários apenas por encontrar boas referências do indivíduo nas redes sociais, por exemplo.

Apatia com o andamento

Como não aceitava que os processos precisavam obedecer a uma ordem de execuções, ficava apático e pouco se conectava com as atividades. Sua desatenção para funções que considerava desnecessárias quase causou um grande prejuízo para o negócio.

Exageros no uso do smartphone

Recomendamos que nossos funcionários usem seus smartphones com moderação e apenas para as relações de trabalho ou urgências familiares. Mas Davi estava constantemente conectado ao que acontecia no mundo. Isso prejudicava a comunicação com ele e o acompanhamento das atividades do estágio.

Dificuldade em trabalhar em equipe

Enquanto seu time discutia soluções para alguns entraves do processo de aceitação de novos franqueados, Davi começou a se afastar. Em alguns momentos, ele até se fazia presente nas reuniões e acompanhava as discussões, mas se mantinha cabisbaixo e trabalhando em outra coisa.

Lembro do dia em que o encontrei no corredor e percebi que seu orgulho e energia (que me chamaram a atenção quando nos conhecemos) tinham ido embora. Ele me contou brevemente sobre o que se passava no setor e, sem perceber, me disse o que achava que seria a melhor solução.

— Grande ideia, Davi! Por que você não expôs para o time?

Com uma tristeza aparente, ele respondeu que não achava sua sugestão tão boa e, provavelmente, ninguém mais acharia. Naquele momento, vi que eu também precisava agir para adaptar a lógica da empresa a essa nova realidade digital, afinal nossos processos funcionavam bem, mas ainda poderiam ser melhorados e automatizados

O workflow salvou o dia

Davi queria que tudo fosse resumido, simplificado e realizado hoje, sem se preocupar com as consequências ou quem mais teria que atuar na etapa seguinte. Então, busquei uma solução que fizesse com que ele e o restante da equipe enxergassem o todo.

Em vez de ficar restrito às análises de documentação para ser franqueado, Davi agora conseguia entender que, se sua etapa não fosse bem executada, problemas no setor financeiro e até mesmo no operacional poderiam acionar recursos e pessoas indevidamente. Como resultado, seriam causados prejuízos para o negócio.

Com esse workflow, também foi possível entender as relações de prazo e buscar conhecimento nos eventos que ocorreram em situações passadas para embasar as decisões atuais. Os efeitos foram tão interessantes que Davi começou a dar ideias e contribuir também para outros setores.

Como parte do Programa de Talentos, ele inclusive participou de atividades das demais áreas, adorou a equipe de marketing e, por fim, retomou seu orgulho por suas contribuições.

Aliás, o orgulho voltou tão intensamente que foi preciso lembrar a Davi que, antes de sua promoção a supervisor, ainda viria sua contratação como funcionário. Mas tudo bem, entendemos que ainda eram traços da sua cultura do imediatismo que, com o tempo, seriam integralmente curados.

Gostou dessa história? Então, compartilhe-a em suas redes sociais. Será que tem um Davi nelas?

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